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Em meio ao esforço de produção do Projeto de Graduação em Design (equivalente à monografia) e à ansiedade natural do começo da vida profissional, eu chegava, enfim, ao último ano de faculdade, na ESPM-Rio. A grade curricular seguiria absolutamente normal, se não fosse a expectativa inoculada pelos veteranos em torno de uma disciplina e de seu professor: Análise Gráfica, com André Stolarski.

Quem já foi aluno do André reconhece essa fama. Ele não precisou de idade, nem de mestrado, para tornar-se uma verdadeira lenda. Com um encadeamento perfeito de ideias, sempre transmitidas com uma voz invariavelmente suave, prendia a atenção de todos durante o tempo que fosse necessário. Conquistava pela consistência do seu discurso e pela humildade da sua postura.

Foi como aluno de Análise Gráfica que conheci pessoalmente o André. Além das referências dadas pelos colegas de outros períodos, eu tinha lido o seu brilhante artigo A identidade visual toma corpo, publicado em “O design gráfico brasileiro: anos 60” (Cosac Naify, 2006).

No começo, hesitava em tentar uma conversa com ele. Ficava nervoso. Mas as notas 10 e suas palavras sempre generosas me encorajaram a dirigir-lhe a pergunta fundamental daquele meu 7º período de graduação.

Terminada mais uma aula, André saía apressado da sala, carregando sua famosa mochila de viagem. Costumava vir da ponte aérea diretamente para a ESPM. Consegui alcançá-lo e entrar no elevador junto com ele. Quando as portas se fecharam, a contagem regressiva dos andares ganhou um novo significado para mim: era o tempo exato de que dispunha para convencê-lo a ser o meu orientador. Pude apenas resumir o tema do meu projeto em uma frase e logo lhe fazer o convite. André olhou para cima e, tranquilamente, balançando a cabeça para um lado e para o outro, começou a elencar os critérios que baseariam a sua decisão. A calma dele contrastava com a minha expectativa. Imagine a honra de poder ser orientado pelo André Stolarski!

— É… O tema é interessante… Você é aplicado… Escreve bem… Tá bom, eu topo!

Logo o elevador se abriu e veio uma advertência:

— Mas eu não tenho muito tempo, por conta das viagens e da Tecnopop. Vamos conversando por e-mail, tudo bem?

Mais tarde, eu soube que o André não aceitava mais orientar ninguém e que até deixaria de lecionar no semestre seguinte por conta dos seus inúmeros compromissos em São Paulo. Soube também que ele, mesmo sem ter mais uma disciplina na ESPM, pediu que postergassem o seu vínculo com a instituição para poder terminar de me orientar e cumprir com a sua palavra. Foi assim que nasceu todo o sentimento de gratidão que tenho por ele e que, desde então, nunca mais parou de crescer.

Pouco tempo depois, ainda durante a faculdade, enviei um e-mail perguntando se havia uma vaga de estágio na Tecnopop. A resposta, ipsis literis: “Oportunidade de estágio? Você só pode estar brincando. Basta chegar aqui, entrar e começar a trabalhar!”.

Não era algo tão simples quanto parece nessa irreverente frase escrita por ele. Quando cheguei, praticamente não havia espaço sobrando no escritório. A agência vivia o seu auge, com centenas de projetos exaustivamente premiados no Brasil e no exterior, num ambiente único de aprendizado e camaradagem. As amizades nascidas na Tecnopop são cultivadas até hoje, lastreadas pela sincera admiração que um tem pelo trabalho do outro.

Amizade, produtividade e conhecimento eram os pilares da Tecnopop. Eram, também, os pilares da vida do André.

O André foi um dos primeiros a acreditar naquilo que eu sabia sobre mídia e comunicação. Somente um homem como ele seria capaz de construir na minha carreira a inusitada ponte que liga o design visual ao rádio. Tive a felicidade de trabalhar ao seu lado em todos os projetos de branding que dirigiu para o Sistema Globo de Rádio, grupo do qual sou funcionário atualmente.

Por tudo isso, ao saber do falecimento do André, senti a tristeza de perder muito: um professor inesquecível; um líder exemplar; um entusiasta incansável; um escritor genial; um amigo verdadeiro. Ao mesmo tempo, senti enorme gratidão à vida, que me deu a honra de ingressar no hall de pessoas marcadas pela generosidade e pela cordialidade do André.

Agora nos cabe seguir com a responsabilidade de mantermos vivas as inúmeras sementes que ele plantou em cada palavra, em cada gesto, em cada trabalho.

Ensinar é uma das maiores formas de caridade. Cada vez que transmitimos o que aprendemos, estendemos um pouco a existência daquele que nos ensinou primeiro. É assim que manteremos o André eternamente vivo, entre nós.